domingo, 21 de dezembro de 2008

Raimundo Nonato, o grande educador brasileiro explica a Multi, Poli, Inter e Transdisciplinaridade


Multidisciplinaridade.

Sua descrição geral evoca uma gama de disciplinas propostas

simultaneamente, mas sem fazer aparecer diretamente as

relações que podem existir entre elas. É um tipo de sistema

de um só nível e de objetivos múltiplos; não há nenhuma

cooperação entre as disciplinas (Japiassu, 1976). Pode-se

pensar no seguinte exemplo: em um hospital, vários

profissionais estão reunidos, mas trabalham isoladamente.

O paciente passa por uma contagem de linfócitos, em seguida

é atendido pelo oncologista e, finalmente, dirige-se à sala de

quimioterapia. Neste caso não há contato entre os

profissionais envolvidos no atendimento: o bioquímico da

contagem de linfócitos, o médico oncologista e a enfermeira

que cuida da quimioterapia não estão articulados entre si de

modo que apareçam relações entre as disciplinas. A ausência

de uma articulação não significa, no entanto, uma ausência

de relação. O fato é que os profissionais, nesse caso, estão

inseridos em um esquema automático, o qual não gera

espaço para uma articulação como em outras modalidades

da disciplinaridade

Pluridisciplinaridade.

Sua descrição geral envolve a justaposição de diversas disciplinas situadas

geralmente no mesmo nível hierárquico e agrupadas de

modo que apareçam as relações existentes entre elas. É um

tipo de sistema de um só nível e de objetivos múltiplos; há

cooperação, mas sem coordenação (Japiassu, 1976).

Quando, por exemplo, um paciente procura atendimento

psiquiátrico e, após receber orientação e prescrição

psicofarmacológica, é encaminhado, pelo próprio psiquiatra,

a um psicólogo para um trabalho de psicoterapia. Os

profissionais cooperam, mas não se articulam necessariamente

de maneira coordenada. Nesse caso, a cooperação não é

automática, mas cumpre a finalidade de estabelecer contatos

entre os profissionais e suas áreas de conhecimento

Interdisciplinaridade

a descrição geral envolve uma axiomática comum a um grupo de disciplinas conexas e

definidas em um nível hierárquico imediatamente superior,

o que introduz a noção de finalidade. É um tipo de sistema

de dois níveis e de objetivos múltiplos com a coordenação

procedendo de nível superior (Japiassu, 1976). Pode-se pensar

no exemplo de uma equipe para atendimento ambulatorial

de gestantes adolescentes de baixa renda. A equipe é formada

por um médico pediatra, um médico psiquiatra, um

psicólogo, um assistente social, uma psicopedagoga, uma

enfermeira e uma secretária. Cada área mencionada agrega

ainda estudantes que realizam estágio no ambulatório.

Todavia, o que prevalece é o saber médico, cabendo a

coordenação e a tomada de decisão aos profissionais da área

médica, que dirigem e orientam a equipe em seu trabalho


Transdisciplinaridade

a descrição geral envolve uma coordenação de todas as disciplinas e interdisciplinas em

um sistema de ensino inovado, sobre a base de uma

axiomática geral. É um tipo de sistema de níveis e objetivos

múltiplos. A coordenação propõe uma finalidade comum

dos sistemas (Japiassu, 1976). Numa equipe de posto de

saúde, por exemplo, encontram-se diversos profissionais

reunidos. Pode-se tomar como exemplo a equipe que recebe

pacientes com problemas mentais. Esta equipe, muito

provavelmente, reunirá profissionais como psicólogos,

psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais, fonaudiólogos,

fisioterapeutas, neurologistas, clínicos gerais, etc. Quando o

paciente chega para uma avaliação todos irão assisti-lo e

buscarão formular um diagnóstico acerca do caso. Para que

esse diagnóstico seja dado em situação de

transdisciplinaridade não basta apenas que cada profissional

opine a partir de sua área e, finalmente, um tratamento seja

indicado. Para que a configuração transdisciplinar seja

alcançada é preciso que esses profissionais,

fundamentalmente, estejam reciprocamente situados em sua

área de origem e na área de cada um dos colegas (Iribarry,

2002).

Para que a configuração transdisciplinar se torne

verdadeira é preciso que o psicólogo, por exemplo, seja

introduzido na área de seu colega assistente social e na área

de seu colega psiquiatra e vice-versa. Ademais, é preciso

que cada problema não solucionado em uma das áreas

seja levado para uma área vizinha e, assim, seja submetido

à luz de um novo entendimento (Caon, 1998). Quando,

hipoteticamente, um psicólogo percebe a insuficiência de

seus paradigmas no trabalho com o autismo, ele poderá

propor ao seu colega neurologista um desafio. Que ali onde

a psicologia não consegue formular uma intervenção (e o

que resulta disso é uma interrogação), a neurologia possa,

com a ajuda das demais áreas que compõem a equipe, iluminar

o caminho com alguma proposta de intervenção. Esta é a

situação paradigmática para geração de novos dispositivos

para o trabalho com o autismo, por exemplo. Todavia, é

preciso que psicólogo e neurologista se coloquem

humildemente à disposição um do outro e do caso, evitando

demorar-se na comum posição de discutir algumas

incompatibilidades que podem surgir entre as duas áreas.

Nosso exemplo apresenta dois profissionais apenas, mas é

importante salientar que isso vale para todos os encontros

possíveis entre as áreas que compõem uma equipe de trabalho


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