quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ele.


Era o fim de tarde, o dia difícil de trabalho, o calor arrebatador, sei la o que era, sei que desde de manha ele pressentia que aquela não era uma sexta feira qualquer. Acordou com pesadelos que não se lembrava direito, sabia apenas que era tudo cinza nesse sonho ruim. Após acordar ele estava enjoado, vomitou suas mazelas, deu descarga, tomou banho e quis voltar pra cama, mas não podia, as obrigações previamente firmadas o forçavam a prosseguir e a fazer coisas que não queria e não acreditava.
Enquanto se arrumava para sair e ir trabalhar ele pensava entre resmungos quantas pessoas também se sentiam assim, insatisfeitas. Era essa a palavra que melhor definia seu estado de espírito. Era ele certamente um ser insatisfeito.
Ele
tinha a característica de se entregar as coisas que fazia, mas pra isso ele precisava crer e o credo lhe faltava. Aprendeu com seu pai que não se deve trabalhar apenas por dinheiro e sim pelo prazer, pelo se sentir bem e útil com aquilo que faz.
Seu pai era com certeza um dos melhores afinadores de piano de todo o pais, sem exagero, de sua cidade e estado de fato o era. Profissão rara de se encontrar, para tal e preciso amor, um algo a mais pra se dedicar inteiramente ao instrumento e com um que de escultor ou de um velho e paciente japonês que molda um bonsai, entregar-se a aquele momento de seu oficio afinando as cordas em busca da harmonia entre as mesmas para que cada nota tivesse o seu som apropriado, para que cada nota encontrasse sua essência. Infelizmente Franco não herdou o dom do oficio de seu pai, por mais que gostasse do som do piano e entendesse bastante sobre seu maquinário.
E voltando a nossa sexta feira, enquanto Franco pegava uma camisa qualquer e colocava sua calca jeans já surrada, pensava em seu pai e queria sentir o que ele sentia ao ir trabalhar, queria que seus olhos brilhassem também. Pensava nos porquês, nos trabalhos que teve, nos seus sonhos de hoje e de ontem. Pensava também nos pra quês, nas utilidades e inutilidades do nosso cotidiano, de quando perdemos nossos sonhos de criança achando que eram bobagens. Assim, enquanto saia se lembrava que queria ter sido astronauta, veterinário, dono de um abrigo para cães, pensou em ser cozinheiro, jornalista, escritor, ator, cineasta e ate político. Queria ser útil, servir para um mundo melhor, atitude nobre para uma criança. Esse desejo permaneceu latente em Franco ate os dias em que nosso personagem se encontra. Por muitas vezes conseguiu se sentir assim, mas nunca sentia que era o suficiente, sempre havia algo mais a fazer. Entretanto a caridade como praticada normalmente não o agradava, pois sentia que as pessoas a praticavam para se sentirem melhores, pra tirarem um peso da consciência e não pra ajudar alguém de bom grado, resumindo era um ato falso e interesseiro e Franco não sabia ser assim. Franco não sabia mentir, não enganava ninguém, era transparente demais, sincero demais, por vezes inconveniente demais, afinal o mundo e de aparências e não sobre a realidade do próprio, ninguém que a verdade, muitas vezes ela não representa o que desejamos, mesmo assim ela e o que e.
Franco pegou o ônibus para o trabalho, antes passou na padaria no caminho comprou um suco gelado de pêssego, seu preferido, ligou seu radio no fone de ouvido e como de costume dormiu a caminho de seu destino. Na radio tocava uma musica que ficou famosa na voz de dois artistas que ele gostava muito, Elvis Presley e Frank Sinatra, no caso a versão tocada era a de Elvis e a musica era My Way, a musica que nosso caro colega sempre quis que tocasse em seu funeral, na realidade na festa de seu funeral, mas isso e outra historia.
De súbito não há mais musica, não há mais ônibus, não há nada mais, mas ele ainda dormia.

domingo, 29 de novembro de 2009

Velho texto de minha mãe.

Era fim de tarde e o menino sentado na calçada, descalço, pés sujos de tanto brincar, olhava o céu e mirava a lua, que já se fazia notar, mesmo ainda sendo dia.
O menino olhava e não entendia. Porque simplesmente não podia ir até lá? Porque não podia ir até a lua? Como não seria possível alcançar algo que parecia tão perto? Em suas “andanças” já chegou a lugares que com certeza eram muito, mas muito mais distantes do que aquela enorme estrela, que nem cara de estrela têm. Onde já se viu estrela redonda, que diminui de tamanho até desaparecer? Pro menino estrela é aquilo que a professora desenha no quadro da escola, aquela coisinha amarela com cinco pontas.
O menino, conversando com outros meninos, contou a eles sua vontade de ir a lua, os outros riram dele e disseram que era impossível, mas o menino era insistente, dizer a ele que algo não é possível sem dar maiores explicações não bastava, então procurou saber o porque, aí a confusão foi armada. As outras crianças não sabiam muito bem o que dizer, alguns diziam que era preciso voar para ir até a lua, outros diziam que ela era muito longe, mais longe até que o Japão, que fica lá do outro lado do mundo, mas o menino não acreditava que a lua pudesse ser assim tão longe, e voar, voar pra ele era apenas um detalhe, depois se dava um jeito. Após todos os meninos já terem falado tudo que tinham pra falar, ele respondeu: - Ora, um avião que é muito pesado pode voar, porque eu que sou levinho e pequenino não posso voar também?
- Você não tem penas.
- E porque isso me impediria de voar?
- As penas ajudam os passarinhos a voar, acho que se não tivessem elas não conseguiriam voar.
- O avião também não tem penas, assim como eu, mas voa.
- Mesmo assim, mesmo que você conseguisse voar como um super herói, coisa que você não é, a lua é muito longe, não ia dar certo.
- Longe nada, ela ta ali ó, bem em cima da gente.
Nenhum outro menino vencia seus argumentos, ele era imbatível e se sentia um máximo assim.


O menino acabou por adquirir fama entre a criançada da escola e da vizinhança de sua casa, como a primeira criança que iria alua. Alguns boatos a seu respeito começaram a nascer, diziam que nas férias escolares ele ia para a nasa passar por um duro treinamento. Agora ninguém ria do menino, todos achavam incrível ter um colega astronauta.
Os professores e os pais da garotada da vizinhança, quando souberam que havia um menino que dizia ser astronauta, ficaram irritados: “Onde já se viu menino ir a lua?” Resolveram então dizer que o menino era um mentiroso e estava enganando todo mundo com essa história absurda.
Coitado do menino, ele nunca disse que era astronauta, nunca disse também que passava as férias na nasa, não fez nada para que seu sonho o torna- se popular, (mas bem que estava gostando do ocorrido), a única coisa que o menino disse é que queria ir a lua.
Agora o menino não era mais popular, era um mentiroso e ninguém queria saber dele.
Um dia, quando durante a aula a professora pediu para que os alunos escrevessem uma redação falando sobre seus sonhos, sobre que rumo gostariam que suas vidas tomassem, enfim, o que queriam ser quando crescessem. O menino teve uma ótima idéia, resolveu escrever sobre seu sonho de ir a lua e sobre a confusão que arrumou.
O menino escreveu, e isso ele fazia muito bem e sabia que na aula seguinte cada aluno leria sua redação para toda a turma. Ao chegar sua vez os outros já estavam de cara torcida, quando ele começou então, todos ficaram de cara feia, alguns até protestaram o chamando de mentiroso, mas a professora interveio dizendo- Crianças todos cometem erros, saibam desculpá-lo
- Mas professora eu não errei, eu não menti.
- Você não tem vergonha de dizer uma coisa dessas? Peça desculpas para seus colegas por mentir assim. De novo.
-Professora, eu só peço que me deixem terminar de ler min há redação, todos puderam ler o que escreveram, comigo não pode ser diferente e a senhora disse que no primeiro parágrafo era pra gente dizer qual era nosso sonho, e foi isso que fiz, ouve só.
- Tudo bem, termine de ler seu texto.- A professora disse com desanimo, pois o menino estava certo, todos leram, porque ele não poderia ler?
O menino prosseguiu com sua redação e contou a história que todos conheciam, seu sonho. Depois começou a explicar a confusão que aconteceu e entre suas explicações ele disse:

- Peço a vocês desculpas, mesmo achando que não fiz nada de errado. Eu não inventei historias pra ninguém, eu nunca disse que era astronauta, eu nunca disse que ia pra essa tal de NASA que eu nem sei se é gente ou se é lugar.
A única coisa que eu fiz e não sei se fiz certo, foi contar o meu sonho e vocês fizeram dele o que quiseram, o sonho era meu, mesmo que parecesse bobo, mesmo que seja impossível, o sonho era meu, mas agora eu já nem sei se quero mais ir a lua, às vezes ela é mais longe que o Japão mesmo, ia demorar muito pra chegar lá, quem sabe quando eu for grande, quando eu crescer, quem sabe ai eu vire astronauta de verdade e encontre essa NASA que manda gente pra lua, só que agora meu sonho mudou. Vi que além do meu sonho ser difícil de realizar é difícil de sonhar também, o porque eu não entendi bem não, mas agora eu queria que todo mundo tivesse o direito de sonhar o que quisesse, sem que ninguém risse dele ou o chamasse de mentiroso.
Agora é isso que eu mais quero.

domingo, 2 de agosto de 2009

Inteligência empresarial


Depois de muito tempo uma nova postagem, nem sei se alguém le as bobagens que escrevo mas lá vai. Vamos brincar de misturar filosofia com administração:

No período de pós segunda guerra mundial um administrador poderia ser compreendido como alguém que é responsável pelo trabalho e por seus subordinados. O filósofo austríaco Peter Drucker, que nasceu em 19 de novembro de 1909, em Viena, Áustria e faleceu em 11 de novembro de 2005, em Claremont, Califórnia, EUA e considerado o pai da Gestão, nos diria que a definição de administrador deveria caminhar para aquele que “é responsável pela aplicação e desempenho do conhecimento”. Os grandes ganhos, na conjuntura apresentada pelo mercado, virão do conhecimento, mas o que isso quer dizer? Se antes o que gerava riqueza e poder eram os fatores de produção tradicionais, como o capital, terra e trabalho, hoje é o conhecimento. Assim sendo, os modelos econômicos baseados nos três fatores tradicionais de produção devem ser revistos, no intuito de incorporar o conhecimento como fator essencial de produção econômica.
Recorremos novamente a Peter Drucker (1993) para compreender melhor esse paradigma de mercado, onde o mesmo diz, em seu livro Post-Capitalist Society, que a “questão central para o executivo moderno é ser capaz de usar o Conhecimento para criar novos produtos e serviços”.
O Conhecimento, tão reforçado por Drucker não é algo novo, mas sim um artifício utilizado em todas as grandes civilizações de nossa história. Desde a Grécia antiga encontramos diferentes visões sobre o significado e a função do Conhecimento. Sócrates, os monges Zen-budistas e os monges taoístas compreendiam que a única função do conhecimento era o auto-conhecimento e que este deveria ser usado para o crescimento pessoal. Entretanto, o filósofo chinês Confúcio e Protágoras, nome mais influente do movimento sofista na antiguidade grega, acreditavam que o propósito do conhecimento era fazer com que a pessoa soubesse o que dizer e como dizer.
A partir do final dos anos 70 um grande número de pesquisadores da ciência da informação convenceu-se de que um caminho promissor para a área seria abordá-la sob um enfoque cognitivo (VAKKARI, 1994). Neste sentido, alguns estudos sobre o relacionamento entre a ciência da informação e as ciências cognitivas visavam o entendimento sobre o comportamento de usuários de sistemas, produtos e serviços de informação, ambientes organizacionais para a estruturação de sistemas de informação, implantação de atividades de gestão da informação, de inteligência competitiva, dentre outros. Estes estudos abordavam a questão da informação como elemento gerador de conhecimento, e que o conhecimento se dava quando a informação era percebida e aceita, sendo toda alteração provocada no estoque mental de saber do indivíduo, através da interação com estruturas de informação.
Maturana e Varella (1984) apresentaram, então, a abordagem da Biologia do Conhecer, propondo uma discussão sobre a natureza do conhecer, que parte da premissa de que os seres vivos são sistemas determinados por sua estrutura, numa condição de complementaridade estrutural entre sistema e meio. Para eles, o meio pode somente desencadear uma mudança estrutural no organismo, mas não sob a idéia de que a informação é determinante do conhecimento, e este do comportamento, mas sim de que o meio pode ou não desencadear comportamentos, sendo que esta dinâmica ocorre tanto do meio para o organismo, quanto do organismo para o meio. Nesta perspectiva, somente é informação a “perturbação do meio ‘aceita’ pela estrutura do indivíduo” (BORGES, 2003). O que vai definir a aceitação de uma perturbação como informação é a estrutura biológica do “usuário de informação”, considerando a sua pré-disposição emocional em aceitar tal perturbação, sua história de vida e os domínios de ação por onde transita. O conhecimento é “conduta adequada e ação efetiva em um contexto relacional no qual cada comportamento é um ato cognitivo”, e cognição é “uma ação que depende de interação congruente” (BORGES, 2003). Borges (2003) afirma que os indivíduos têm histórias únicas, interagem de formas diferentes com o meio e, por isso, conhecem e aprendem de formas diferentes.
Ao se adotar os conceitos de informação e conhecimento sob a ótica da Biologia do Conhecer, deve-se considerar os “usuários de informação” como seres humanos individuais e sociais, que possuem suas experiências individuais determinadas por sua estrutura biológica, mas que, ao mesmo tempo, vivem em interação constante com outros indivíduos, ou em diferentes “domínios de ação” (empresa, família, lazer, amigos, etc.). Desta forma, os indivíduos fazem parte de diferentes redes de relações e interações estabelecidas em cada domínio pelos quais transitam, e estas redes influenciam suas condutas no meio (“ato de conhecer”), sua linguagem e suas pré-disposições de aceitar ou não determinada “perturbação” (informação).
Muito se falou e se fala sobre conhecimento sem haver um consenso de uma melhor definição, entretanto não é intuito do presente texto buscar uma definição e sim, apenas ilustrar melhor sobre o que envolve a noção de inteligência empresarial.

quinta-feira, 16 de abril de 2009


“Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?” (REICH,1974, p.23).

Acabamos por personificar o que Wilhelm Reich, médico, cientista e psicanalista do inicio do século passado, chama de Zé Ninguém, no livro Escuta Zé Ninguém, escrito em 1945. Se preferido, o termo pode ser compreendido como “homem comum”, ou “homem médio”, um homem que por opção não é mais livre.

.Reich nos difere tal tipo de homem dos que ele chama de “grandes homens” da seguinte forma:

Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la;que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar. (REICH,1974, p.23).

Através dos Zés Ninguém que insistem em nos tomar por morada, perdemos a capacidade de enxergar, e de enxergar o que de nós está mais próximo, que, no caso, somos nós mesmos. Reich ao procurar entender esse “homem comum”, esse “homem médio” diz: “... olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza:” ÉS TU TEU PRÓPRIO NEGREIRO” . (REICH, 1974, p.24). Vale a pena ressaltar que esse homem não é alguém que necessariamente tem um baixo poder aquisitivo. O Zé Ninguém não faz distinções de credo, cor, idade ou classe social. Ele pode ser encontrado em várias localidades. Ele é a opinião pública, ele é o povo, o senso comum, a consciência social.

Não refiro-me aqui ao Zé Ninguém de Reich de forma pejorativa, afinal, ele é o homem comum, assim como eu e você. Um homem que compõe nossa sociedade, encontrando-se em todos os setores da mesma.

È a vida desse homem e uma busca em especial que pretendo por em discussão nas páginas dessa proposta. A busca a que me refiro é pela felicidade. Não tenho por pretensão ou objetivo conceituar o que é felicidade, mesmo que possamos de um modo amplo compreendê-la como um estado de satisfação devido a situação do mundo. Entretanto essa noção se torna muito variável de acordo com a situação em que o mundo se encontra.

No mundo da antiguidade grega, Tales de Mileto, que viveu aproximadamente entre 625/4-558 A.C, diria que a felicidade é ter corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada. (Abagnano pág 434). As questões apresentadas por Tales remetem-se a relação do homem com o mundo em que se encontra e com os outros homens que se encontram nesse mesmo mundo. Demócrito de Abdera, (cerca de 460-370 A.C), de forma similar, mas com um detalhe importante, diria que seria algo como “a medida do prazer e da proporção da vida” (abagnano 434).

Essa noção buscava manter-se afastada dos excessos, da desmedida. Trazer a tona idéia de prazer com felicidade, como fez Demócrito, fica mais clara com Aristipo, que diz que o fim é o prazer particular e que a felicidade é o sistema dos prazeres particulares.

A idéia de ligar a felicidade com o prazer é hoje mais presente na nossa sociedade de consumo, movida pelo desejo, onde o ser, como um brinquedo velho, perde lugar para o ter.

A publicidade manda consumir, mas a economia proíbe. Contudo, como controlar o desejo, se a boca já saliva diante da mesa farta? Como raciocinar, se a barriga quer pensar por nós? Afinal, “o mesmo sistema que precisa vender cada vez mais, precisa também pagar cada vez menos”. (GALEANO,1999,p.27). Ora, o “banquete das maravilhas” não é gratuito. Assim, recorro novamente a Galeano:

Caminhar é um perigo e respirar é uma façanha nas grandes cidades do mundo ao avesso. Quem não é prisioneiro da necessidade é prisioneiro do medo: uns não dormem por causa da ânsia de ter o que não tem, outros não dormem por causa do pânico de perder o que têm. O mundo ao avesso nos adestra para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa, nos reduz a solidão e nos consola com drogas químicas e amigos cibernéticos. Estamos condenados a morrer de fome, a morrer de medo ou a morrer de tédio, isso se uma bala perdido não vier abreviar nossa existência. (GALEANO,1999, p.7.8).

È através desse consumo, desse banquete das maravilhas que nos é oferecido todo o dia, através da TV, do rádio, da Internet, das novas mídias, dos outdoors, dos jingles que não paramos de cantarolar e de todo espaço que acaba sendo ocupado pelas propagandas de tudo e para todos. Afinal, todas vendem a mesma coisa, parece estranho pensar assim, mas se der uma olhada mais de perto pode perceber que todas vendem sonhos. Promessas de uma vida feliz, que só se sucederá após adquirirmos o produto anunciado, pois ele é o meio mais rápido para alcançarmos “a tal felicidade”.

Assim, criamos nossas necessidades, para além da comida e bebida, para além do que parece básico e necessário dentro da justa medida aristotélica ou da idéia de vida simples que permeava os jardins de Epicuro.

Não pretendo aqui propor os limites da necessidade, nem dizer o que é preciso para ser ou não feliz. Mas que felicidade é essa? Baudrillard nos diria:

A primeira vista, semelhante significado e função, induz conseqüências importantes quanto ao respectivo conteúdo: para ser o veículo igualitário, é preciso que a felicidade seja mensurável. Importante que se trate do bem estar mensurável por objetos e signos, do “conforto”- na expressão de Torqueville, que já notava a tendência das sociedades democráticas para a intensificação do bem-estar – enquanto reabsorção das fatalidades sociais e igualização de todos os destinos. A felicidade como fruição total e interior, felicidade independente de signos que poderiam manifestá-la aos olhos dos outros e de nós mesmos, sem necessidade de provas, encontra-se desde já excluída do ideal, de consumo, em que a felicidade surge primeiramente como exigência de igualdade (ou, claro está, de distinção) e deve, em de tal demanda, significar-se sempre a “propósito” de critérios visíveis. Sendo assim, a Felicidade distancia-se ainda mais de toda a “festa” ou exaltação coletiva, já que, alimentada por uma exigência igualitária, se funda nos princípios individualistas, fortificados pela Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão, que reconhecem explicitamente a cada um (ao indivíduo) o direito à felicidade. (BAUDRILLARD, 1995, p.47.48)