“Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?” (REICH,1974, p.23).
Acabamos por personificar o que Wilhelm Reich, médico, cientista e psicanalista do inicio do século passado, chama de Zé Ninguém, no livro Escuta Zé Ninguém, escrito em 1945. Se preferido, o termo pode ser compreendido como “homem comum”, ou “homem médio”, um homem que por opção não é mais livre.
.Reich nos difere tal tipo de homem dos que ele chama de “grandes homens” da seguinte forma:
Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la;que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar. (REICH,1974, p.23).
Através dos Zés Ninguém que insistem em nos tomar por morada, perdemos a capacidade de enxergar, e de enxergar o que de nós está mais próximo, que, no caso, somos nós mesmos. Reich ao procurar entender esse “homem comum”, esse “homem médio” diz: “... olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza:” ÉS TU TEU PRÓPRIO NEGREIRO” . (REICH, 1974, p.24). Vale a pena ressaltar que esse homem não é alguém que necessariamente tem um baixo poder aquisitivo. O Zé Ninguém não faz distinções de credo, cor, idade ou classe social. Ele pode ser encontrado em várias localidades. Ele é a opinião pública, ele é o povo, o senso comum, a consciência social.
Não refiro-me aqui ao Zé Ninguém de Reich de forma pejorativa, afinal, ele é o homem comum, assim como eu e você. Um homem que compõe nossa sociedade, encontrando-se em todos os setores da mesma.
È a vida desse homem e uma busca em especial que pretendo por em discussão nas páginas dessa proposta. A busca a que me refiro é pela felicidade. Não tenho por pretensão ou objetivo conceituar o que é felicidade, mesmo que possamos de um modo amplo compreendê-la como um estado de satisfação devido a situação do mundo. Entretanto essa noção se torna muito variável de acordo com a situação em que o mundo se encontra.
No mundo da antiguidade grega, Tales de Mileto, que viveu aproximadamente entre 625/4-558 A.C, diria que a felicidade é ter corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada. (Abagnano pág 434). As questões apresentadas por Tales remetem-se a relação do homem com o mundo em que se encontra e com os outros homens que se encontram nesse mesmo mundo. Demócrito de Abdera, (cerca de 460-370 A.C), de forma similar, mas com um detalhe importante, diria que seria algo como “a medida do prazer e da proporção da vida” (abagnano 434).
Essa noção buscava manter-se afastada dos excessos, da desmedida. Trazer a tona idéia de prazer com felicidade, como fez Demócrito, fica mais clara com Aristipo, que diz que o fim é o prazer particular e que a felicidade é o sistema dos prazeres particulares.
A idéia de ligar a felicidade com o prazer é hoje mais presente na nossa sociedade de consumo, movida pelo desejo, onde o ser, como um brinquedo velho, perde lugar para o ter.
A publicidade manda consumir, mas a economia proíbe. Contudo, como controlar o desejo, se a boca já saliva diante da mesa farta? Como raciocinar, se a barriga quer pensar por nós? Afinal, “o mesmo sistema que precisa vender cada vez mais, precisa também pagar cada vez menos”. (GALEANO,1999,p.27). Ora, o “banquete das maravilhas” não é gratuito. Assim, recorro novamente a Galeano:
Caminhar é um perigo e respirar é uma façanha nas grandes cidades do mundo ao avesso. Quem não é prisioneiro da necessidade é prisioneiro do medo: uns não dormem por causa da ânsia de ter o que não tem, outros não dormem por causa do pânico de perder o que têm. O mundo ao avesso nos adestra para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa, nos reduz a solidão e nos consola com drogas químicas e amigos cibernéticos. Estamos condenados a morrer de fome, a morrer de medo ou a morrer de tédio, isso se uma bala perdido não vier abreviar nossa existência. (GALEANO,1999, p.7.8).
È através desse consumo, desse banquete das maravilhas que nos é oferecido todo o dia, através da TV, do rádio, da Internet, das novas mídias, dos outdoors, dos jingles que não paramos de cantarolar e de todo espaço que acaba sendo ocupado pelas propagandas de tudo e para todos. Afinal, todas vendem a mesma coisa, parece estranho pensar assim, mas se der uma olhada mais de perto pode perceber que todas vendem sonhos. Promessas de uma vida feliz, que só se sucederá após adquirirmos o produto anunciado, pois ele é o meio mais rápido para alcançarmos “a tal felicidade”.
Assim, criamos nossas necessidades, para além da comida e bebida, para além do que parece básico e necessário dentro da justa medida aristotélica ou da idéia de vida simples que permeava os jardins de Epicuro.
Não pretendo aqui propor os limites da necessidade, nem dizer o que é preciso para ser ou não feliz. Mas que felicidade é essa? Baudrillard nos diria:
A primeira vista, semelhante significado e função, induz conseqüências importantes quanto ao respectivo conteúdo: para ser o veículo igualitário, é preciso que a felicidade seja mensurável. Importante que se trate do bem estar mensurável por objetos e signos, do “conforto”- na expressão de Torqueville, que já notava a tendência das sociedades democráticas para a intensificação do bem-estar – enquanto reabsorção das fatalidades sociais e igualização de todos os destinos. A felicidade como fruição total e interior, felicidade independente de signos que poderiam manifestá-la aos olhos dos outros e de nós mesmos, sem necessidade de provas, encontra-se desde já excluída do ideal, de consumo, em que a felicidade surge primeiramente como exigência de igualdade (ou, claro está, de distinção) e deve, em de tal demanda, significar-se sempre a “propósito” de critérios visíveis. Sendo assim, a Felicidade distancia-se ainda mais de toda a “festa” ou exaltação coletiva, já que, alimentada por uma exigência igualitária, se funda nos princípios individualistas, fortificados pela Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão, que reconhecem explicitamente a cada um (ao indivíduo) o direito à felicidade. (BAUDRILLARD, 1995, p.47.48)
