domingo, 29 de novembro de 2009

Velho texto de minha mãe.

Era fim de tarde e o menino sentado na calçada, descalço, pés sujos de tanto brincar, olhava o céu e mirava a lua, que já se fazia notar, mesmo ainda sendo dia.
O menino olhava e não entendia. Porque simplesmente não podia ir até lá? Porque não podia ir até a lua? Como não seria possível alcançar algo que parecia tão perto? Em suas “andanças” já chegou a lugares que com certeza eram muito, mas muito mais distantes do que aquela enorme estrela, que nem cara de estrela têm. Onde já se viu estrela redonda, que diminui de tamanho até desaparecer? Pro menino estrela é aquilo que a professora desenha no quadro da escola, aquela coisinha amarela com cinco pontas.
O menino, conversando com outros meninos, contou a eles sua vontade de ir a lua, os outros riram dele e disseram que era impossível, mas o menino era insistente, dizer a ele que algo não é possível sem dar maiores explicações não bastava, então procurou saber o porque, aí a confusão foi armada. As outras crianças não sabiam muito bem o que dizer, alguns diziam que era preciso voar para ir até a lua, outros diziam que ela era muito longe, mais longe até que o Japão, que fica lá do outro lado do mundo, mas o menino não acreditava que a lua pudesse ser assim tão longe, e voar, voar pra ele era apenas um detalhe, depois se dava um jeito. Após todos os meninos já terem falado tudo que tinham pra falar, ele respondeu: - Ora, um avião que é muito pesado pode voar, porque eu que sou levinho e pequenino não posso voar também?
- Você não tem penas.
- E porque isso me impediria de voar?
- As penas ajudam os passarinhos a voar, acho que se não tivessem elas não conseguiriam voar.
- O avião também não tem penas, assim como eu, mas voa.
- Mesmo assim, mesmo que você conseguisse voar como um super herói, coisa que você não é, a lua é muito longe, não ia dar certo.
- Longe nada, ela ta ali ó, bem em cima da gente.
Nenhum outro menino vencia seus argumentos, ele era imbatível e se sentia um máximo assim.


O menino acabou por adquirir fama entre a criançada da escola e da vizinhança de sua casa, como a primeira criança que iria alua. Alguns boatos a seu respeito começaram a nascer, diziam que nas férias escolares ele ia para a nasa passar por um duro treinamento. Agora ninguém ria do menino, todos achavam incrível ter um colega astronauta.
Os professores e os pais da garotada da vizinhança, quando souberam que havia um menino que dizia ser astronauta, ficaram irritados: “Onde já se viu menino ir a lua?” Resolveram então dizer que o menino era um mentiroso e estava enganando todo mundo com essa história absurda.
Coitado do menino, ele nunca disse que era astronauta, nunca disse também que passava as férias na nasa, não fez nada para que seu sonho o torna- se popular, (mas bem que estava gostando do ocorrido), a única coisa que o menino disse é que queria ir a lua.
Agora o menino não era mais popular, era um mentiroso e ninguém queria saber dele.
Um dia, quando durante a aula a professora pediu para que os alunos escrevessem uma redação falando sobre seus sonhos, sobre que rumo gostariam que suas vidas tomassem, enfim, o que queriam ser quando crescessem. O menino teve uma ótima idéia, resolveu escrever sobre seu sonho de ir a lua e sobre a confusão que arrumou.
O menino escreveu, e isso ele fazia muito bem e sabia que na aula seguinte cada aluno leria sua redação para toda a turma. Ao chegar sua vez os outros já estavam de cara torcida, quando ele começou então, todos ficaram de cara feia, alguns até protestaram o chamando de mentiroso, mas a professora interveio dizendo- Crianças todos cometem erros, saibam desculpá-lo
- Mas professora eu não errei, eu não menti.
- Você não tem vergonha de dizer uma coisa dessas? Peça desculpas para seus colegas por mentir assim. De novo.
-Professora, eu só peço que me deixem terminar de ler min há redação, todos puderam ler o que escreveram, comigo não pode ser diferente e a senhora disse que no primeiro parágrafo era pra gente dizer qual era nosso sonho, e foi isso que fiz, ouve só.
- Tudo bem, termine de ler seu texto.- A professora disse com desanimo, pois o menino estava certo, todos leram, porque ele não poderia ler?
O menino prosseguiu com sua redação e contou a história que todos conheciam, seu sonho. Depois começou a explicar a confusão que aconteceu e entre suas explicações ele disse:

- Peço a vocês desculpas, mesmo achando que não fiz nada de errado. Eu não inventei historias pra ninguém, eu nunca disse que era astronauta, eu nunca disse que ia pra essa tal de NASA que eu nem sei se é gente ou se é lugar.
A única coisa que eu fiz e não sei se fiz certo, foi contar o meu sonho e vocês fizeram dele o que quiseram, o sonho era meu, mesmo que parecesse bobo, mesmo que seja impossível, o sonho era meu, mas agora eu já nem sei se quero mais ir a lua, às vezes ela é mais longe que o Japão mesmo, ia demorar muito pra chegar lá, quem sabe quando eu for grande, quando eu crescer, quem sabe ai eu vire astronauta de verdade e encontre essa NASA que manda gente pra lua, só que agora meu sonho mudou. Vi que além do meu sonho ser difícil de realizar é difícil de sonhar também, o porque eu não entendi bem não, mas agora eu queria que todo mundo tivesse o direito de sonhar o que quisesse, sem que ninguém risse dele ou o chamasse de mentiroso.
Agora é isso que eu mais quero.